recolhe as roupas, mariana
que o céu já pesa sobre nós.
são apenas vestidos remendados,
pedaços de bambu e cordas de nylon
mas sobe a poeira dos paralelepípedos:
hoje não cantam cigarras
e o vento coreografa folhas no chão de cimento.

quaram peças brancas
em sabão e zinco.

recolhe as roupas, mariana.
e entra.

(porque vai chover.
e eu quero me molhar.)

se você olhar agora
(para os mortos na estação)
entenderá que:
o brilho das retinas guarda em silêncio as lembranças;
a mulher que fala está ausente;
os cegos saltarão o vão.
fecham-se as cortinas
e a luz parte agora mesmo
para o túnel.
(nesse segundo e meio
de escuridão
eu desenho o homem dormindo.)

mundo novo #2

varre as folhas, mariana
que o vento da tarde passou descabelando as árvores.

(a hora dos morcegos acabou
mas não temos medo:
eles sobrevoam nossas cabeças
e vão embora.)

são frutívoros, diz nise
e estende toalhas no varal dos fundos
antes de secar os cabelos ao sol.

mariana passa camomila nos meus
e nos dela
e se zanga comigo porque ficam mais dourados que os seus.

a noite chega e tenho medo de precisar ir à casinha.
tampouco me acalma o urinol sob a cama.

passo a madrugada tentando evitar que os caracóis entrem em meu ouvido
e desviando o olhar dele agora cheio.

rangem as tábuas de madeira velha e
quando amanhece
há café passando pelo pano
metades de pão na chapa
e um sol sem cerimônia infiltrando as janelas carcomidas.

você já viu a perimetral implodida?
os pilares de concreto e as vigas de metal – agora aparentes – se erguendo imponentes (inutilmente) contra o céu. e os transeuntes atônitos diante da gigantescabilidade daquilo perdendo o vai e vem lento das barcas sob um céu descoberto destoando do entorno onde edificações antigas agora emergem.
vem, vamos ver a perimetral implodida.
que inventaram a máquina de restaurar o passado.

storm

quando o nevoeiro se dissipar liberando a paisagem, quando o mar ressurgir por detrás das nuvens densas e baixas, quando pudermos ver de novo aquela ponte que leva aos lugares onde nunca fomos libertando de novo alguns futuros como possíveis.

quando o mar revolto se acalmar. e o estrondo que fazem as ondas agora silenciar em espuma. quando a areia varrida pelo vento sossegar.

quando os pequenos tornados de poeira cessarem o rodopio e a sujeira espalhada pela rua vier acompanhada da calmaria que sucede as tempestades.

vai chegar aquele sossego triste que sentíamos à tarde quando o barulho das crianças silenciava no infinito – daquele jeito instantâneo e imprevisível que nos pregava sustos ao avesso.

fronteira

a cada dia que passa nossos desertos se expandem mais um pouco. até então, foi evitando o olhar que nos conformamos. mas agora, mesmo perifericamente, eles não nos serão invisíveis. quando meu deserto se encontrar com o seu, perderemos para sempre a fronteira que nos colocou em contato – o resto de nossos territórios serão reciprocamente inóspitos.

não sobrará nada de nosso.

primeiro vai ser a areia invadindo os olhos. a tempestade de vento. e antes que comecemos a entender tamareiras como sinais de água, estaremos tão fartos da sede que nos retiraremos.

toda essa aparente proximidade é extremamente frágil.
(nenhum de nós irá enfrentar seu próprio deserto.)