vamos voltar? você me pergunta. e nesse mesmíssimo instante, todo o universo paralelo que construímos para nós começa a desmoronar.
cada vez que retornamos, existem infinitas pequenezas dessemelhantes. fingimos não notar porque sabemos que é aí que mora o esquecimento dos lugares. se atentarmos para isso, cada vez serão maiores as diferenças – o esforço de sustentar o real não nos permite reproduzir fielmente o lugar que apenas existe quando estamos.
é triste. mas tentamos não pensar nisso.
logo depois que passamos pelo portal, você me fala dela. me fala sobre doces. num choque, percebo que passamos de novo pro lado de cá e agora existem de novo as arestas agudas. tenho medo de me espetar então não digo nada.
você vai contar estórias de novo. coisas que parecem importantes. eu já não vejo o sorriso no canto do seu olho: ficou perdido na areia escura. anoitece. mas antes, o que era chuva fina se transforma num sol insistente saindo de trás das nuvens. você coloca o óculos. fotofóbico. os carros vão zunindo ao redor até a gente se perder de novo na confusão do trânsito e nos caminhos que conhecemos melhor.
esse dia acabou.
e a gente não sabe se virão outros.

soterrado

a borra de café revelou outro coração.
mas era um coração explodido.
foi aquela granada de mão
que você me pediu pra segurar.
eu desatei os nós dos cadarços
com muito cuidado
mas não adiantou.

 

(quando entrei naquele prédio
eu já sabia que estava desmoronando)