convite

é ali que vem: o medo. espreita, no escuro do abismo do peito. é ali que mora o medo: no perigo do desconhecido. ao mesmo tempo convida: se atira, vem! todas as horas serão tardias. não tem mais espaço pro medo num peito cansado. se atira no abismo, vem! do chão do fundo do abismo escuro não passa. antes de morrer, sara. ou não sara nunca. se atira, sem pestanejar, vem! no escuro do abismo do peito, lá no fundo, lá no chão do fundo do poço do abismo do escuro do vazio, grita um convite: vem!

rio-santos

era você ali parado contemplando o azul. tínhamos pedido apenas uma dose de delicadeza mas estava quase no fim. o dia caminhava para o vazio. nós segurávamos com extremo cuidado o fio de seda que impedia o sol de se por. mas chegava o momento em que a tensão romperia o fio e seria inútil.

enquanto seguramos, o tempo vai se arrastando. a compensação virá no exato instante em que nos separarmos. o resto de luz correndo pra noite escura. o cotidiano como bigorna sobre nossas cabeças.

são muitos os quilômetros entre nós. mesmo assim, você me fará convites ao impossível.

vou no mercado buscar uvas.
vem comigo?

o parque

tem certeza? você perguntou. e, sem esperar resposta, pegou a minha mão e começamos a correr. primeiro a gente viu cair a roda gigante. você tapou a boca com a mão: era o nosso brinquedo favorito – olho no olho um do outro colhendo sorrisos. você gostava de me olhar sem piscar naquele tom de desafio. e eu encarava de volta.

depois foi a montanha russa. e você engoliu em seco: eu não tinha coragem e você foi sozinho só pra me provar. mas as pernas tremiam.
um a um foram ruindo os brinquedos. desfizeram-se as brincadeiras. as gargalhadas soavam ainda.
foi ali que eu te conheci menino. o corpo de homem, cabelos já grisalhos, rugas no cantos de seus olhos curiosos de mim.

a gente ganhou um ingresso de volta pra infância.
mas durou muito pouco…