storm

quando o nevoeiro se dissipar liberando a paisagem, quando o mar ressurgir por detrás das nuvens densas e baixas, quando pudermos ver de novo aquela ponte que leva aos lugares onde nunca fomos libertando de novo alguns futuros como possíveis.

quando o mar revolto se acalmar. e o estrondo que fazem as ondas agora silenciar em espuma. quando a areia varrida pelo vento sossegar.

quando os pequenos tornados de poeira cessarem o rodopio e a sujeira espalhada pela rua vier acompanhada da calmaria que sucede as tempestades.

vai chegar aquele sossego triste que sentíamos à tarde quando o barulho das crianças silenciava no infinito – daquele jeito instantâneo e imprevisível que nos pregava sustos ao avesso.

fronteira

a cada dia que passa nossos desertos se expandem mais um pouco. até então, foi evitando o olhar que nos conformamos. mas agora, mesmo perifericamente, eles não nos serão invisíveis. quando meu deserto se encontrar com o seu, perderemos para sempre a fronteira que nos colocou em contato – o resto de nossos territórios serão reciprocamente inóspitos.

não sobrará nada de nosso.

primeiro vai ser a areia invadindo os olhos. a tempestade de vento. e antes que comecemos a entender tamareiras como sinais de água, estaremos tão fartos da sede que nos retiraremos.

toda essa aparente proximidade é extremamente frágil.
(nenhum de nós irá enfrentar seu próprio deserto.)

inventário

quando a última partícula das coisas que testemunharam sua presença se desintegrar, sumir, escafeder, quando o cabelo perder o corte, a franja que você elogiou, quando desbotarem as cores da última tatuagem, ou ainda, ou pior, uma nova tiver sido feita, a pele mais colorida que antes: mais um desenho que você nunca viu.

quando as novidades que eu guardei pra te contar ficarem obsoletas, ou esquecidas numa gaveta qualquer da memória já não tiverem serventia. quando o presente se perder na bagunça, ou se estragar, ou for comido pelas traças.

quando eu já não sentir pena de esquecer. quando o seu nome, inesperadamente pronunciado, não mais ressoar por dentro como um susto.

(fiz um inventário de todas as nossas lembranças.)

agora é sua ausência que me acompanha.
mais um deserto se abre sobre mim.