inventário

quando a última partícula das coisas que testemunharam sua presença se desintegrar, sumir, escafeder, quando o cabelo perder o corte, a franja que você elogiou, quando desbotarem as cores da última tatuagem, ou ainda, ou pior, uma nova tiver sido feita, a pele mais colorida que antes: mais um desenho que você nunca viu.

quando as novidades que eu guardei pra te contar ficarem obsoletas, ou esquecidas numa gaveta qualquer da memória já não tiverem serventia. quando o presente se perder na bagunça, ou se estragar, ou for comido pelas traças.

quando eu já não sentir pena de esquecer. quando o seu nome, inesperadamente pronunciado, não mais ressoar por dentro como um susto.

(fiz um inventário de todas as nossas lembranças.)

agora é sua ausência que me acompanha.
mais um deserto se abre sobre mim.

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