inventário

quando a última partícula das coisas que testemunharam sua presença se desintegrar, sumir, escafeder, quando o cabelo perder o corte, a franja que você elogiou, quando desbotarem as cores da última tatuagem, ou ainda, ou pior, uma nova tiver sido feita, a pele mais colorida que antes: mais um desenho que você nunca viu.

quando as novidades que eu guardei pra te contar ficarem obsoletas, ou esquecidas numa gaveta qualquer da memória já não tiverem serventia. quando o presente se perder na bagunça, ou se estragar, ou for comido pelas traças.

quando eu já não sentir pena de esquecer. quando o seu nome, inesperadamente pronunciado, não mais ressoar por dentro como um susto.

(fiz um inventário de todas as nossas lembranças.)

agora é sua ausência que me acompanha.
mais um deserto se abre sobre mim.

convite

é ali que vem: o medo. espreita, no escuro do abismo do peito. é ali que mora o medo: no perigo do desconhecido. ao mesmo tempo convida: se atira, vem! todas as horas serão tardias. não tem mais espaço pro medo num peito cansado. se atira no abismo, vem! do chão do fundo do abismo escuro não passa. antes de morrer, sara. ou não sara nunca. se atira, sem pestanejar, vem! no escuro do abismo do peito, lá no fundo, lá no chão do fundo do poço do abismo do escuro do vazio, grita um convite: vem!

rio-santos

era você ali parado contemplando o azul. tínhamos pedido apenas uma dose de delicadeza mas estava quase no fim. o dia caminhava para o vazio. nós segurávamos com extremo cuidado o fio de seda que impedia o sol de se por. mas chegava o momento em que a tensão romperia o fio e seria inútil.

enquanto seguramos, o tempo vai se arrastando. a compensação virá no exato instante em que nos separarmos. o resto de luz correndo pra noite escura. o cotidiano como bigorna sobre nossas cabeças.

são muitos os quilômetros entre nós. mesmo assim, você me fará convites ao impossível.

vou no mercado buscar uvas.
vem comigo?

o parque

tem certeza? você perguntou. e, sem esperar resposta, pegou a minha mão e começamos a correr. primeiro a gente viu cair a roda gigante. você tapou a boca com a mão: era o nosso brinquedo favorito – olho no olho um do outro colhendo sorrisos. você gostava de me olhar sem piscar naquele tom de desafio. e eu encarava de volta.

depois foi a montanha russa. e você engoliu em seco: eu não tinha coragem e você foi sozinho só pra me provar. mas as pernas tremiam.
um a um foram ruindo os brinquedos. desfizeram-se as brincadeiras. as gargalhadas soavam ainda.
foi ali que eu te conheci menino. o corpo de homem, cabelos já grisalhos, rugas no cantos de seus olhos curiosos de mim.

a gente ganhou um ingresso de volta pra infância.
mas durou muito pouco…

vamos voltar? você me pergunta. e nesse mesmíssimo instante, todo o universo paralelo que construímos para nós começa a desmoronar.
cada vez que retornamos, existem infinitas pequenezas dessemelhantes. fingimos não notar porque sabemos que é aí que mora o esquecimento dos lugares. se atentarmos para isso, cada vez serão maiores as diferenças – o esforço de sustentar o real não nos permite reproduzir fielmente o lugar que apenas existe quando estamos.
é triste. mas tentamos não pensar nisso.
logo depois que passamos pelo portal, você me fala dela. me fala sobre doces. num choque, percebo que passamos de novo pro lado de cá e agora existem de novo as arestas agudas. tenho medo de me espetar então não digo nada.
você vai contar estórias de novo. coisas que parecem importantes. eu já não vejo o sorriso no canto do seu olho: ficou perdido na areia escura. anoitece. mas antes, o que era chuva fina se transforma num sol insistente saindo de trás das nuvens. você coloca o óculos. fotofóbico. os carros vão zunindo ao redor até a gente se perder de novo na confusão do trânsito e nos caminhos que conhecemos melhor.
esse dia acabou.
e a gente não sabe se virão outros.

soterrado

a borra de café revelou outro coração.
mas era um coração explodido.
foi aquela granada de mão
que você me pediu pra segurar.
eu desatei os nós dos cadarços
com muito cuidado
mas não adiantou.

 

(quando entrei naquele prédio
eu já sabia que estava desmoronando)