fronteira

a cada dia que passa nossos desertos se expandem mais um pouco. até então, foi evitando o olhar que nos conformamos. mas agora, mesmo perifericamente, eles não nos serão invisíveis. quando meu deserto se encontrar com o seu, perderemos para sempre a fronteira que nos colocou em contato – o resto de nossos territórios serão reciprocamente inóspitos.

não sobrará nada de nosso.

primeiro vai ser a areia invadindo os olhos. a tempestade de vento. e antes que comecemos a entender tamareiras como sinais de água, estaremos tão fartos da sede que nos retiraremos.

toda essa aparente proximidade é extremamente frágil.
(nenhum de nós irá enfrentar seu próprio deserto.)

inventário

quando a última partícula das coisas que testemunharam sua presença se desintegrar, sumir, escafeder, quando o cabelo perder o corte, a franja que você elogiou, quando desbotarem as cores da última tatuagem, ou ainda, ou pior, uma nova tiver sido feita, a pele mais colorida que antes: mais um desenho que você nunca viu.

quando as novidades que eu guardei pra te contar ficarem obsoletas, ou esquecidas numa gaveta qualquer da memória já não tiverem serventia. quando o presente se perder na bagunça, ou se estragar, ou for comido pelas traças.

quando eu já não sentir pena de esquecer. quando o seu nome, inesperadamente pronunciado, não mais ressoar por dentro como um susto.

(fiz um inventário de todas as nossas lembranças.)

agora é sua ausência que me acompanha.
mais um deserto se abre sobre mim.

rio-santos

era você ali parado contemplando o azul. tínhamos pedido apenas uma dose de delicadeza mas estava quase no fim. o dia caminhava para o vazio. nós segurávamos com extremo cuidado o fio de seda que impedia o sol de se por. mas chegava o momento em que a tensão romperia o fio e seria inútil.

enquanto seguramos, o tempo vai se arrastando. a compensação virá no exato instante em que nos separarmos. o resto de luz correndo pra noite escura. o cotidiano como bigorna sobre nossas cabeças.

são muitos os quilômetros entre nós. mesmo assim, você me fará convites ao impossível.

vou no mercado buscar uvas.
vem comigo?

o parque

tem certeza? você perguntou. e, sem esperar resposta, pegou a minha mão e começamos a correr. primeiro a gente viu cair a roda gigante. você tapou a boca com a mão: era o nosso brinquedo favorito – olho no olho um do outro colhendo sorrisos. você gostava de me olhar sem piscar naquele tom de desafio. e eu encarava de volta.

depois foi a montanha russa. e você engoliu em seco: eu não tinha coragem e você foi sozinho só pra me provar. mas as pernas tremiam.
um a um foram ruindo os brinquedos. desfizeram-se as brincadeiras. as gargalhadas soavam ainda.
foi ali que eu te conheci menino. o corpo de homem, cabelos já grisalhos, rugas no cantos de seus olhos curiosos de mim.

a gente ganhou um ingresso de volta pra infância.
mas durou muito pouco…

vamos voltar? você me pergunta. e nesse mesmíssimo instante, todo o universo paralelo que construímos para nós começa a desmoronar.
cada vez que retornamos, existem infinitas pequenezas dessemelhantes. fingimos não notar porque sabemos que é aí que mora o esquecimento dos lugares. se atentarmos para isso, cada vez serão maiores as diferenças – o esforço de sustentar o real não nos permite reproduzir fielmente o lugar que apenas existe quando estamos.
é triste. mas tentamos não pensar nisso.
logo depois que passamos pelo portal, você me fala dela. me fala sobre doces. num choque, percebo que passamos de novo pro lado de cá e agora existem de novo as arestas agudas. tenho medo de me espetar então não digo nada.
você vai contar estórias de novo. coisas que parecem importantes. eu já não vejo o sorriso no canto do seu olho: ficou perdido na areia escura. anoitece. mas antes, o que era chuva fina se transforma num sol insistente saindo de trás das nuvens. você coloca o óculos. fotofóbico. os carros vão zunindo ao redor até a gente se perder de novo na confusão do trânsito e nos caminhos que conhecemos melhor.
esse dia acabou.
e a gente não sabe se virão outros.