convite

é ali que vem: o medo. espreita, no escuro do abismo do peito. é ali que mora o medo: no perigo do desconhecido. ao mesmo tempo convida: se atira, vem! todas as horas serão tardias. não tem mais espaço pro medo num peito cansado. se atira no abismo, vem! do chão do fundo do abismo escuro não passa. antes de morrer, sara. ou não sara nunca. se atira, sem pestanejar, vem! no escuro do abismo do peito, lá no fundo, lá no chão do fundo do poço do abismo do escuro do vazio, grita um convite: vem!

fera adormecida

…então você pisca e passou uma vida.

você acorda e a vida está aí desfilando embaixo da sua janela, alegoricamente colorida em tons de realidade, prenhe de nascimentos, duvidosa de certezas, verborrágica.

você acorda e nasceram flores no limbo.

você acorda.
e a corda arrebentou.

e nem que você acordasse cada uma das 24 horas dos 365 dias de cada um dos anos do resto da sua vida, ainda assim, não teria tempo de saber de tudo que acontece.

e o que acontece?

(mas nós, dorminhocos de ponto, comedores de mosca, engolidores de sapo, nós, fiéis adoradores da rotina, não teremos visto nada)