recolhe as roupas, mariana
que o céu já pesa sobre nós.
são apenas vestidos remendados,
pedaços de bambu e cordas de nylon
mas sobe a poeira dos paralelepípedos:
hoje não cantam cigarras
e o vento coreografa folhas no chão de cimento.

quaram peças brancas
em sabão e zinco.

recolhe as roupas, mariana.
e entra.

(porque vai chover.
e eu quero me molhar.)

mundo novo #2

varre as folhas, mariana
que o vento da tarde passou descabelando as árvores.

(a hora dos morcegos acabou
mas não temos medo:
eles sobrevoam nossas cabeças
e vão embora.)

são frutívoros, diz nise
e estende toalhas no varal dos fundos
antes de secar os cabelos ao sol.

mariana passa camomila nos meus
e nos dela
e se zanga comigo porque ficam mais dourados que os seus.

a noite chega e tenho medo de precisar ir à casinha.
tampouco me acalma o urinol sob a cama.

passo a madrugada tentando evitar que os caracóis entrem em meu ouvido
e desviando o olhar dele agora cheio.

rangem as tábuas de madeira velha e
quando amanhece
há café passando pelo pano
metades de pão na chapa
e um sol sem cerimônia infiltrando as janelas carcomidas.